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A
ANÁLISE DA PERFORMANCE NOS JOGOS DESPORTIVOS
Revisão acerca da análise do jogo
JÚLIO
GARGANTA
(Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física -
Universidade do Porto)
Revista Portuguesa de Ciências
do Desporto 1 (1): 57-64, 2001
Resumo
A
análise da performance é um requisito importante para a
procura da eficácia no treino e na competição, e,
reconhecidamente, uma área com aplicações fecundas na
investigação em Ciências do Desporto. O crescente
reconhecimento que lhe é atribuído resulta do aporte de
informação que pode disponibilizar para melhorar o treino e
das potenciais vantagens que encerra para viabilizar a regulação
da prestação competitiva. No contexto mais restrito dos jogos
desportivos, através do recurso à designada análise do jogo,
treinadores e investigadores têm vindo a obter dados relevantes
acerca dos factores que concorrem para a excelência desportiva.
No presente artigo, é apresentada uma breve revisão a propósito
do estado da arte no domínio da análise do jogo naquele grupo
de desportos, tendo em conta a evolução dos conceitos, o
aperfeiçoamento dos métodos e a transformação dos
instrumentos de pesquisa.
Summary
The
analysis of performance is an important requirement for seek of
the effectiveness in training and competition, and it is an area
with fruitful application in sport science research. Big
importance is devoted to information about players and teams
behaviour in other to improve the training process and to make
possible the regulation of competitive performance. In the most
restricted context of sport games, through game analysis,
trainers and investigators have been coming to obtain important
data concerning factors that compete for sport expertise. In the
present article, we present a brief walk through concerning the
state of the art about game analysis in sport games, having in
account the evolution of the concepts, the improvement of the
methods and the hashing of the research instruments.
1.
Introdução
O
estudo do jogo a partir da observação do comportamento dos
jogadores e das equipas não é recente, tendo emergido a par
com os imperativos da especialização, no âmbito da prestação
desportiva.
Na literatura, as áreas de produção de estudos realizados
neste âmbito são referenciadas a partir de diferentes denominações,
de entre as quais se destacam: observação do jogo (game
observation), análise do jogo (match analysis) e análise
notacional (notational analysis). Todavia, a expressão mais
utilizada na literatura é análise do jogo (Garganta, 1997)
considerando-se que engloba diferentes fases do processo,
nomeadamente a observação dos acontecimentos, a notação dos
dados e a sua interpretação (Franks & Goodman, 1986;
Hughes, 1996).
Dispondo
hoje em dia de uma vasta gama de meios e métodos, aperfeiçoados
ao longo dos anos, treinadores e investigadores procuram aceder
à informação veiculada através da análise do jogo e nela
procuram benefícios para aumentarem os conhecimentos acerca do
jogo e melhorarem a qualidade da prestação desportiva dos
jogadores e das equipas.
A
informação recolhida a partir da análise do comportamento dos
atletas em contextos naturais (treino e competição) é
actualmente considerada uma das variáveis que mais afectam a
aprendizagem e a eficácia da acção desportiva (Hughes &
Franks, 1997). Por isso, o conhecimento acerca da proficiência
com que os jogadores e as equipas realizam as diferentes tarefas
tem-se revelado fundamental para aferir a congruência da sua
prestação em relação aos modelos de jogo e de treino
preconizados.
Neste
quadro de problemas, os investigadores têm procurado
esclarecimentos acerca da performance diferencial dos jogadores
e das equipas (Janeira, 1998), na tentativa de identificarem os
factores que condicionam significativamente o rendimento
desportivo e, sobretudo a forma como eles se entrecruzam para
induzirem eficácia.
Em
síntese, pode dizer-se que a análise da performance nos jogos
desportivos tem possibilitado: (1) configurar modelos da
actividade dos jogadores e das equipas; (2) identificar os traços
da actividade cuja presença/ausência se correlaciona com a
eficácia de processos e a obtenção de resultados positivos;
(3) promover o desenvolvimento de métodos de treino que
garantam uma maior especificidade e, portanto, superior
transferibilidade; (4) indiciar tendências evolutivas das
diferentes modalidades desportivas.
2.
Estado da arte
Dos
anos trinta até aos nossos dias, aumentou consideravelmente o
volume de estudos de âmbito científico realizados através do
recurso à observação e análise do jogo.
No
Quadro 1 pode observar-se a referência a cerca de centena e
meia de trabalhos realizados com recurso à análise do jogo,
provenientes de diferentes quadrantes geográficos e
contemplando diversos jogos desportivos. Diga-se que nele apenas
estão inventariados alguns estudos e que, numa busca mais
exaustiva, seria possível duplicarmos, em número, os aqui
receberam menção, facto que nos permite perceber a enorme
expressão que a análise do jogo tem vindo a assumir no quadro
da investigação aplicada aos jogos desportivos.
Esta constatação é extensiva para o âmbito das actividades
académicas, e pode ser atestada pelo número considerável de
teses de mestrado e de doutoramento, surgidas sobretudo a partir
de 1993, nas quais os respectivos autores recorreram à análise
do jogo, enquanto instrumento fundamental.
O
interesse verificado neste domínio tem-se ainda ampliado para
outros territórios, dos quais o exemplo mais flagrante é a
comunicação social, cujos órgãos vêm difundindo, com insistência,
alguns indicadores quantitativos, disponibilizando cifras sobre
os eventos do jogo e dando forma ao que alguém, curiosamente, já
chamou de "estatística popular".
Quadro
1 - Alguns estudos de análise do jogo, realizados no âmbito do
treino e da competição nos JD, nos últimos setenta anos (1930
a 2000).
| Data |
Autor/País |
Modalidade |
| 1931 |
Messersmith
& Corey (EUA) |
Basquetebol |
| 1932 |
Messersmith
& Fay (EUA) |
Futebol
Americano |
| 1938 |
Fay
& Messersmith (EUA) |
Basquetebol |
| 1939 |
Messersmith
& Bucher (EUA) |
Basquetebol |
| 1940 |
Messersmith
et al. (EUA) |
Basquetebol |
| 1942 |
Messersmith
(EUA) |
Basquetebol |
| 1944 |
Messersmith
(EUA) |
Basquetebol
(PhD) |
| 1952 |
Winterbottom
(Inglaterra) |
Futebol |
| 1968 |
Reep
& Benjamin (Inglaterra) |
Futebol |
| 1976 |
Reilly
& Thomas (Inglaterra) |
Futebol |
| 1977 |
Sanderson
& Way (Inglaterra) |
Squash |
| |
Schutz
& Kinsey (Inglaterra) |
Squash |
| 1980 |
Gayoso
(Espanha) |
Futebol |
| |
Hughes
(País de Gales) |
Squash |
| 1981 |
Wrzos
(Polónia) |
Futebol |
| 1982 |
Withers
et al. (Austrália) |
Futebol |
| 1983 |
Franks
et al. (Canadá) |
Futebol |
| 1984 |
Espeçado
& Cruz (Espanha) |
Andebol |
| |
Hart
(Canadá) |
Polo
Aquático |
| 1985 |
Mayhew
& Wenger (Canadá) |
Futebol |
| |
Penner
(Alemanha) |
Voleibol |
| |
Talaga
(Hungria) |
Futebol |
| |
Van
Gool & Tilborgh (Bélgica) |
Futebol |
| 1986 |
Church
& Hughes(Inglaterra) |
Futebol |
| |
Hughes
& Billingham (País de Gales) |
Hóquei
em Campo |
| |
Hughes
& Feery (País de Gales) |
Basquetebol |
| 1987 |
Hernandez
Moreno (Espanha) |
Basquetebol
(PhD) |
| |
Martins
(Portugal) |
Hóquei
em Patins |
| |
Sledziewski
(Polónia) |
Futebol |
| 1988 |
Ali
(Inglaterra) |
Futebol |
| |
Bangsbo
& Mizuno (Dinamarca) |
Futebol |
| |
Chervenjakov
et al. (Bulgária) |
Futebol |
| |
Docherty
et al. (Canadá) |
Raguebi |
| |
Hughes
& Charlish (País de Gales) |
Futebol
Americano |
| |
Luhtanen
(Finlândia) |
Futebol |
| |
McKenna
et al. (Austrália) |
Futebol
Australiano |
| |
Ohashi
et al. (Japão) |
Futebol |
| |
Olsen
(Noruega) |
Futebol |
| |
Pollard
et al. (Inglaterra) |
Futebol |
| |
Rhode
& Espersen (Dinamarca) |
Futebol |
| |
Van
Gool et al. (Bélgica) |
Futebol |
| 1989 |
Aguado
& Riera (Espanha) |
Polo
Aquático |
| |
Alexander
& Boreskie (EUA) |
Andebol |
| |
Dufour
(Bélgica) |
Futebol |
| |
Gréhaigne
(França) |
Futebol
(PhD) |
| 1990 |
Ali
& Farrally (Inglaterra) |
Futebol |
| |
Greco
e Vieira (Brasil) |
Andebol |
| |
Marques
(Portugal) |
Basquetebol
(MSci) |
| 1991 |
Grosgeorge
et al. (França) |
Basquetebol |
| |
Mombaerts
(França) |
Futebol |
| |
Partridge
& Franks (Canadá) |
Futebol |
| |
Reilly
et al. (Inglaterra) |
Futebol |
| 1992 |
Castelo
(Portugal) |
Futebol
(PhD) |
| |
D´
Ottavio & Tranquilli (Itália) |
Futebol |
| |
Doggart
et al. (País de Gales) |
Futebol
Gaélico |
| |
Eom
& Schutz (Canadá) |
Voleibol |
| |
Erdman
& Dargiewicz (Polónia) |
Andebol |
| |
Handford
& Smith () |
Voleibol |
| |
Loy
(Alemanha) |
Futebol |
| |
Smith
& Hughes (País de Gales) |
Polo
Aquático |
| |
Stanhope
& Hughes (País de Gales) |
Raguebi |
| |
Wilkins
et al. (Canadá) |
Hóquei
sobre o gelo |
| |
Winkler
(Alemanha) |
Futebol |
| 1993 |
Anton
& Romance (França) |
Andebol |
| |
Bishovets
et al. (Rússia) |
Futebol |
| |
Claudino
(Portugal) |
Futebol
(MSci) |
| |
Gerish
& Reichelt (Alemanha) |
Futebol |
| |
Jinshan
et al. (Japão) |
Futebol |
| |
Luhtanen
(Finlândia) |
Futebol |
| |
Moutinho
(Portugal) |
Voleibol
(MSci) |
| |
Rebelo
(Portugal) |
Futebol
(MSci) |
| |
Yamanaka
et al. (Japão) |
Futebol |
| 1994 |
Czerwinski
(Polónia) |
Andebol |
| |
Janeira
(Portugal) |
Basquetebol |
| |
Lloret
(Espanha) |
Polo
Aquático (PhD) |
| |
Lothian
& Farraly (Inglaterra) |
Hóquei
em Campo |
| |
McGarry
& Franks (Canadá) |
Squash |
| |
Sarmento
(Portugal) |
Polo
Aquático (PhD) |
| 1995 |
Bacconi
& Marella (Itália) |
Futebol |
| |
Barreto
(Portugal) |
Basquetebol
(PhD) |
| |
Bezerra
(Portugal) |
Futebol
(MSci) |
| |
Fröner
(Alemanha) |
Voleibol |
| |
Luhtanen
et al. (Finlândia) |
Futebol |
| |
Melli
(Itália) |
Futebol |
| |
Richers
(Inglaterra) |
Ténis |
| |
Silva
(Portugal) |
Futebol |
| 1996 |
Borges
(Portugal) |
Andebol
(MSci) |
| |
Garbarino
(França) |
Futebol
(PhD) |
| |
Garganta
& Gonçalves (Portugal) |
Futebol |
| |
Hernandez
Mendo (Espanha) |
Vários
(PhD) |
| |
Larson
et al. (Noruega) |
Futebol |
| |
Liddle
et al. (Inglaterra) |
Badminton |
| |
Loy
(Alemanha) |
Futebol |
| |
Mendes
(Portugal) |
Basquetebol
(MSci) |
| |
Oliveira
(Portugal) |
Andebol
(MSci) |
| |
Safon-Tria
(Espanha) |
Futebol |
| |
Sampedro
(Espanha) |
Futsal
(PhD) |
| 1997 |
Garganta
(Portugal) |
Futebol
(PhD) |
| |
Garganta
et al. (Portugal) |
Futebol |
| |
Kingman
& Dyson (Inglaterra) |
Hóquei
em Patins |
| |
Maçãs
(Portugal) |
Futebol
(MSci) |
| |
Olsen
& Larsen (Noruega) |
Futebol |
| |
Sampaio
(Portugal) |
Basquetebol
(MSci) |
| |
Vaslin
et al. (França) |
Voleibol |
| |
Verlinden
(Bélgica) |
Futebol |
| |
Xie
(China) |
Basquetebol |
| 1998 |
Araújo
(Portugal) |
Futebol
(MSci) |
| |
Ardá
(Espanha) |
Futebol
(PhD) |
| |
Ferreira
da Silva (Portugal) |
Futebol
(MSci) |
| |
Leitão
(Portugal) |
Andebol
(MSci) |
| |
Silva
(Portugal) |
Futebol
(MSci) |
| |
Vales
(Espanha) |
Futebol
(PhD) |
| 1999 |
Barbosa
(Portugal) |
Andebol
(MSci) |
| |
D´Ottavio
& Castagna (Itália) |
Futebol |
| |
Fonseca
(Portugal) |
Andebol
(MSci) |
| |
Gorospe
(Espanha) |
Ténis
(PhD) |
| |
McGarry
et al. (Canadá) |
Squash |
| |
Mortágua
(Portugal) |
Andebol
(MSci) |
| |
Neves
da Silva (Portugal) |
Futebol
(MSci) |
| |
Santos
(Portugal) |
Andebol
(MSci) |
| 2000 |
Argudo
(Espanha) |
Polo
Aquático (PhD) |
| |
Castellano
(Espanha) |
Basquetebol
(PhD) |
| |
Hernandez
Mendo & Anguera (Espanha) |
Hóquei
em Patins |
| |
Lago
(Espanha) |
Vários
(PhD) |
| |
McErlean
et al. (Irlanda) |
Futebol
Gaélico |
| |
Moutinho
(Portugal) |
Voleibol
(PhD) |
| |
Ortega
(Espanha) |
Futebol |
| |
Silva
(Portugal) |
Andebol
(MSci) |
| |
Sousa
(Portugal) |
Voleibol
(MSci) |
MSci
- Dissertações de Mestrado; PhD - Dissertações de
Doutoramento
Partindo
do princípio que as incidências do jogo obedecem a uma lógica
interna particular (Teodorescu, 1985; Hernandez-Pérez, 1994;
Garganta, 1997), vários autores têm procurado perceber os
constrangimentos que caracterizam os diferentes JD, no sentido
de modelar um quadro de exigências que se constitua como referência
fundamental para o treino (Reep & Benjamin, 1968; Gréhaigne,
1989; Dufour & Verlinden, 1994; Garganta, 1997; McGarry et
al., 1999; Castellano, 2000; Moutinho, 2000).
Do
conteúdo da literatura, ressalta que os investigadores têm
recorrido a diversas categorias de observação e a distintos níveis
de análise. Com o intuito de proceder à caracterização da
actividade desenvolvida pelos jogadores e as equipas durante as
partidas, os especialistas focalizaram, inicialmente, os seus
estudos na actividade física imposta aos jogadores,
nomeadamente no que respeita às distâncias percorridas.
Um
dos primeiros, senão o primeiro, dos estudos que se conhecem no
âmbito da análise do jogo nos JD, foi realizado pelo
norte-americano Lloyd Lowell Messersmith, com a colaboração de
S. Corey, em 1931 (Messersmiyh & Corey, 1931), no qual os
autores dão a conhecer um método para determinar as distâncias
percorridas por um jogador de Basquetebol. No ano seguinte surge
um outro estudo, também liderado por Messersmith, com a
colaboração de Fay (Messersmith & Fay, 1932), no qual os
autores aplicam o método já desenvolvido para o Basquetebol,
para determinar a distância percorrida por jogadores de Futebol
Americano.
Refira-se,
a título de exemplo, que entre 1930 e 1944 podemos encontrar
mais de uma dezena de estudos, realizados nos Estados Unidos da
América, orientados para a determinação das distâncias
percorridas por jogadores de Basquetebol (Lyons, 1998).
O
direccionamento das linhas de investigação foi ampliando o seu
campo de análise, evoluindo para a denominada análise do
tempo-movimento, através da qual se procura identificar,
detalhadamente, o número, tipo e frequência das tarefas
motoras realizadas pelos jogadores ao longo do jogo.
Para além do paradigmático trabalho de Reilly & Thomas
(1976), levado a cabo no âmbito do Futebol, outros estudos têm
sido realizados nesta modalidade, e.g. Withers et al. (1982),
Mayhew & Wenger (1985), Ohashi et al. (1988), D´Ottavio
&Tranquilli, 1992) e Rebelo (1993).
Na
mesma linha, várias pesquisas vêm sendo realizadas no Andebol
(Alexander & Boreskie, 1989; Borges, 1996), no Badminton
(Liddle et al., 1996), no Basquetebol (Janeira, 1994; Sampaio,
1997), no Hóquei em Campo (Lothian & Farraly, 1994), no Hóquei
no Gelo (Wilkins et al., 1992), no Raguebi (Docherty et al.,
1988) e no Ténis (Richers, 1995), entre outras.
A
análise das habilidades técnicas tem sido outro dos campos
explorados na análise do jogo (Dufour, 1989; Partridge, &
Franks, 1991; Mesquita, 1998; Hoff & Haaland, 1999).
Contudo,
a inépcia das conclusões decorrentes dos resultados
provenientes de estudos quantitativos, centrados nas acções técnicas
individuais, levaram os analistas a questionar a pouca relevância
contextual dos dados recolhidos e a duvidar da sua pertinência
e utilidade.
Esta
questão fez sobressair a necessidade de se considerar a dimensão
técnica em relação com os condicionalismos tácticos, já que
aquela não pode perfilar per se os traços dominantes do jogo
(Gréhaigne, 1989; Dufour, 1993; Garganta, 1997).
A
consciência de que a expressão táctica assume uma importância
capital nos JD, fez com que a partir da segunda metade da década
de oitenta, a identificação de regularidades reveladas pelos
jogadores e pelas equipas, no quadro das acções colectivas,
tivesse despontado enquanto nova tendência de investigação
(Gréhaigne, 1989; Lloret, 1994; Hernandez Mendo, 1996;
Garganta, 1997)
Neste
âmbito, os analistas têm procurado coligir e confrontar dados
relativos aos comportamentos expressos no jogo, no sentido de
tipificarem as acções que se associam à eficácia dos
jogadores e das equipas. Esta procura aponta três vias
preferenciais: (1) uma que consiste em reunir e caracterizar
blocos quantitativos de dados; (2) outra mais centrada na dimensão
qualitativa dos comportamentos, e na qual o aspecto quantitativo
funciona como suporte à caracterização das acções, de
acordo com a efectividade destas no jogo; (3) uma terceira,
voltada para a modelação do jogo, a partir da observação de
variáveis técnicas e tácticas e da análise da sua covariação.
Sabe-se
que as equipas podem variar os seu padrões de jogo de acordo
com as características da oposição oferecida pelo adversário
(Hughes, 1996). Todavia, poucos investigadores têm tomado em
conta este aspecto (Gréhaigne, 1989; Garganta, 1997).
A
necessidade de interpretar os dados recolhidos em função das
características específicas das partidas, tem levado os
analistas a focalizarem cada vez mais a sua atenção na relevância
contextual dos comportamentos dos participantes, o que justifica
o estudo da organização do jogo das equipas em confronto
(Hughes et al., 1988; Gréhaigne, 1989; Gréhaigne &
Bouthier, 1994; Garganta, 1997).
Uma
das tendências que se perfilam prende-se com a detecção de
padrões de jogo, a partir das acções de jogo mais
representativas, ou críticas, com o intuito de perceber os
factores que induzem perturbação ou desequilíbrio no balanço
ataque/defesa. Neste sentido, os analistas procuram detectar e
interpretar a permanência e/ou ausência de traços
comportamentais na variabilidade de acções de jogo (McGarry
& Franks, 1996).
3.
Evolução metodológica e instrumental da análise do jogo
O processo de recolha, colecção, tratamento e análise dos
dados obtidos a partir da observação do jogo, assume-se como
um aspecto cada vez mais importante na procura da optimização
do rendimento dos jogadores e das equipas. Neste sentido, através
dos denominados sistemas de observação, os especialistas
procuram desenvolver instrumentos e métodos que lhes permitam
reunir informação substantiva sobre as partidas.
O
processo de observação e análise do jogo tem experimentado
uma evolução evidente ao nível dos sistemas utilizados, a
qual se tem processado por etapas, em cada uma das quais o
sistema desenvolvido surge no sentido de aperfeiçoar os
precedentes.
Nos
primórdios as observações realizavam-se ao vivo, eram
assistemáticas e subjectivas, impressionistas. Os registos dos
comportamentos dos atletas e das equipas eram realizados a
partir da técnica denominada "papel e lápis", com
recurso à notação manual.
Embora
esta fase inicial se tivesse pautado por um forte pendor
acumulacionista, à vontade de coligir uma enorme quantidade de
dados parciais, sucedeu a de elaborar instrumentos de observação.
Mais recentemente, a profissionalização das práticas de alta
competição, os meios financeiros disponíveis e a utilização
do desporto como terreno de aplicação da tecnologia suscitaram
novas investigações, o que conduziu a que a informática, ao
substituir as técnicas manuais, tenha permitido uma maior e
mais rápida recolha de informação, bem como um acesso mais rápido
aos dados disponíveis (Grosgeorge, 1990).
Na
medida em que as técnicas e os sistemas de observação diferem
segundo as disciplinas desportivas (Franks & Goodman, 1986;
Dufour, 1989; Grosgeorge et al., 1991), para analisar os
comportamentos nos JD torna-se necessário desenvolver métodos
de recolha e de análise específicos.
Com
o advento dos meios informáticos, os analistas do jogo têm
assistido ao alargamento progressivo do espectro de
possibilidades instrumentais colocadas à sua disposição. Nos
anos mais recentes tem-se verificado uma aposta clara na utilização
de metodologias com recurso a instrumentos cada vez mais
sofisticados, e.g. a análise do jogo apoiada por computador, os
quais pelas suas elevadas capacidades de registo e memorização
tendem a constituir-se como um equipamento importante para o
treinador e para o investigador (Franks, 1987; Grosgeorge, 1990;
Dufour, 1993).
Duma
forma sintética é possível estabelecer uma cronologia
relativa ao desenvolvimento de tais meios:
1. Sistemas de notação manual com recurso à designada técnica
de papel e lápis (Reep & Benjamin, 1968).
2. Combinação de notação manual com relato oral para
ditafone (Reilly & Thomas, 1976).
3. Utilização do computador a posteriori da observação, para
registo, armazenamento e tratamento dos dados (Ali, 1988).
4. Utilização do computador para registo dos dados em simultâneo
com a observação, em directo ou em diferido (Dufour, 1989).
5. A introdução de dados no computador através do
reconhecimento de categorias veiculadas pela voz (voice-over) é
um sistema que tem vindo a ser desenvolvido (Taylor &
Hughes, 1988) e que, segundo Hughes (1993), no futuro poderá
facilitar a recolha de dados, mesmo a não especialistas. A
utilização do CD-Rom, para aumentar a capacidade de memória
para armazenamento dos dados, é outra das possibilidades a
explorar (Hughes, 1996).
6. O sistema mais evoluído que se conhece dá pelo nome de
AMISCO e permite digitalizar semi-automaticamente as acções
realizadas pelos jogadores e pelas equipas, seguindo o jogo em
tempo real e visualizando todo o terreno de jogo.
Com
base na utilização de 8, 10 ou 12 cameras fixas é possível
monitorizar e registar toda a actividade dos jogadores.
Quando
se utilizam computadores, as categorias e os indicadores
seleccionados para a entrada de informação, ou input, procuram
responder a quatro questões: (i) quem executa a acção? (ii)
qual - como e de que tipo - é a acção realizada? (iii) onde
se realiza a acção? (iv) quando é realizada a acção?
O teclado convencional do computador (QWERTY) raramente preenche
os requisitos necessários a um rápido e eficaz input dos
dados. Por isso, em alternativa, tem sido substituído por
teclados especialmente concebidos, onde figuram as categorias -
concept keyboard (Church & Hughes, 1986) e por uma mesa de
digitalização - digital panel, na qual se assinala a
espacialização das acções (Dufour, 1991). Nalguns sistemas,
mesa de digitalização e teclado constituem uma única peça
informática denominada touchpad (Hughes et al., 1988; Partridge
et al., 1993). Noutros, as células com as categorias a digitar
figuram directamente sobre a representação gráfica do terreno
de jogo. Este tipo de aparelho designa-se por playpad (Partridge
& Franks, 1989).
4.
Tendências da análise do jogo
Nos
últimos anos tem-se assistido a uma proliferação de
alternativas para analisar a prestação dos desportistas e das
equipas, consubstanciada na disparidade de indicadores e de
procedimentos adoptados para tal efeito.
Nos
estudos produzidos no âmbito da análise dos JD, constata-se
que os autores vêm recorrendo a metodologias diversas, como a
análise sequencial (Hernandéz Mendo, 1996; Ardá, 1998), a análise
de unidades tácticas e de clusters (Garganta, 1997; Sousa,
2000), a análise de coordenadas polares (Gorospe, 1999) e o
estudo das unidades de competição (Alvaro et al., 1995).
Cada
vez mais se procura, a partir da análise de bases de dados,
configurar modelos de jogo (Bishovets et al., 1993; McGarry
& Franks, 1995a) que permitam definir asserções preditivas
acerca da táctica eficaz -winning tactic (McGarry & Franks,
1995b).
Todavia,
este entendimento tem gerado alguma controvérsia,
questionando-se os métodos estatísticos utilizados (Hughes,
1996) e a sua aplicabilidade face à aleatoriedade e
imprevisibilidade dos comportamentos que caracterizam os JD.
Deste modo, alguns investigadores têm vindo a abandonar os
modelos estocásticos, em que se utiliza o qui-quadrado enquanto
teste estatístico (Kenyon & Schutz, 1970), em favor dos
modelos log-lineares (Eom & Schutz, 1992).
Diga-se,
contudo, que os problemas relacionados com a modelação do jogo
transcendem largamente a questão dos métodos estatísticos.
Como evidencia Dufour (1991), as dificuldades encontradas na
definição de categorias de observação, bem como na construção
de um algoritmo adequado, têm entravado um melhor entendimento
do jogo, dificultando uma célere evolução dos JD.
Ao
nível do entendimento da organização do jogo, gerou-se,
durante alguns anos, um impasse metodológico importante, devido
ao recurso a métodos exclusivamente algorítmicos, em
detrimento de métodos heurísticos (Gréhaigne, 1989).
Nos
JD, o algoritmo, para ser exaustivo, deveria ter em conta todas
as alternativas possíveis, o que colide com a natureza das
numerosas e diversas situações que ocorrem num jogo. Neste
sentido, os procedimentos heurísticos, porque não preconizam
uma tal exaustividade, parecem revelar-se mais apropriados ao
carácter não totalmente previsível do jogo (Gréhaigne,
1992).
No
entanto, ambos os procedimentos, algorítmicos e heurísticos, são
importantes na codificação e interpretação das acções
realizadas pelos jogadores e pelas equipas (Garganta, 1997). O
problema coloca-se, sobretudo, ao nível da sua
complementaridade e compatibilização.
Os
procedimentos algorítmicos, porque comportam a identificação
dos estados cruciais para a selecção das operações, são úteis
na sistematização e ordenamento dos descritores, desde que não
provoquem um "fechamento" do sistema de observação.
Os procedimentos heurísticos, porque relacionados com os
atributos do pensamento criador e da descoberta, revelam-se
importantes nas fases de selecção dos descritores das acções
de jogo (categorias e indicadores) e da sua reformulação.
Nesta
medida, os sistemas devem ter a abertura suficiente para
permitirem, sempre que necessário, uma reformulação de
categorias e indicadores, no sentido de garantir o seu
permanente aperfeiçoamento e adequação.
4.1.
Dados ou informação?
Na
sua essência, o processo de treino visa induzir modificações
observáveis no comportamento dos praticantes (Hughes &
Franks, 1997), no sentido em que as mesmas adquiram o máximo de
transfere positivo para os contextos de competição.
O
jogo, enquanto confronto de duas entidades, com objectivos antagónicos,
emerge do entrelaçamento das acções desenvolvidas pelos
jogadores/equipas. A maior ou menor adequação de uma
determinada acção face ao contexto que a suscita, decorre de lógicas
intimamente ligadas à forma como os actores (jogadores)
apreendem as linhas de força do jogo e ao nível de
conhecimento táctico (declarativo e processual) que os mesmos
denotam.
Não
é de admirar, portanto, que a solução encontrada por um
jogador, para resolver uma situação de jogo, comporte quase
sempre uma margem considerável de subjectividade. Esta é
extensiva a todos os observadores e aumenta com o número e a
variabilidade dos eventos de jogo, pelo que a análise sistemática
do jogo apenas é fiável se os seus propósitos estiverem
claramente definidos.
Não
obstante a análise do jogo possa disponibilizar informação
importante, permanece ainda uma certa resistência à sua
utilização, baseada na visão tradicional de que os
treinadores experientes podem observar um jogo sem qualquer
sistema de apoio à observação, e que retêm com precisão os
elementos críticos do jogo (Franks & McGarry 1996).
Estudos
realizados pelos canadianos Franks & Miller, em 1986,
demonstraram que treinadores de Futebol, quando instados a
descrever os acontecimentos ocorridos em 45 minutos de uma
partida de Futebol obtiveram valores inferiores a 45% de
respostas certas.
Em
1993, Franks realizou um estudo em que comparou a apreciação
de treinadores experientes com treinadores principiantes, face
à performance realizada por atletas. Os treinadores experientes
produziram mais falsas respostas do que os novatos e detectaram
diferenças onde elas não existiam. Para além disso,
mostraram-se mais confiantes, mesmo quando errados nas suas
apreciações.
Estes
estudos atestam que a observação é tão necessária quanto
falível, tornando-se imprescindível conhecer o seu alcance e
os seus limites. Comprovam também que a memória humana é
limitada, sendo praticamente impossível relembrar todos os
acontecimentos que ocorrem durante uma partida (Hughes &
Franks, 1997) e menos ainda as ocorrências de vários jogos, ao
longo de um ou vários campeonatos.
Sabendo-se
que o processamento da informação visual é extremamente
complexo e que os treinadores estão submetidos à forte pressão
das emoções e à parcialidade, como alternativa à observação
casual e subjectiva, tem-se sugerido e utilizado a observação
sistemática e objectiva, a qual tem permitido recolher um número
significativo de dados sobre o jogo, nomeadamente através de
sistemas computadorizados.
Mas,
há que estar atento ao objectivo paradoxal que aqui se perfila,
pois trata-se de objectivar a subjectividade. A intenção última
é identificar os elementos críticos do sucesso na prestação
desportiva, traduzindo "dados" em informação fiável
e útil.
Percorrendo
vários estudos que se debruçam sobre a observação e análise
do jogo nos JD, verifica-se que os sistemas de observação
utilizados têm privilegiado, na sua maioria, a análise
descontextualizada das acções do jogador, o produto das acções
ou comportamentos, a dimensão quantitativa das acções e as
situações que originam golo ou ponto.
Para
treinadores e investigadores, as análises que salientam o
comportamento da equipa e dos jogadores, através da identificação
das regularidades e variações das acções de jogo,
afiguram-se claramente mais profícuas do que a exaustividade de
elementos quantitativos, relativos a acções individuais e não
contextualizadas.
Face
às necessidades e particularidades dos JD, justifica-se a
construção de sistemas elaborados a partir de categorias
integrativas, configuradas para caracterizar (Garganta, 1997):
(1) a organização do jogo a partir das características das
sequências de acções (unidades tácticas) das equipas em
confronto; (2) os tipos de sequências que geram acções
positivas; (3) as situações que induzam ruptura ou perturbação
no balanço ofensivo e defensivo das equipas que se defrontam;
(4) as quantidades da qualidade das acções de jogo.
4.2.
Encontrar primeiro; procurar depois!
No
domínio particular da análise do jogo, tem-se verificado que,
não raramente, os sistemas de observação e registo perdem
eficácia pelo facto do caudal de dados obtido se afigurar
confuso (Gerish & Reichelt, 1993), porquanto constitui
material disperso e retalhado. Quer isto dizer que, não
obstante o recurso a meios sofisticados, a proliferação de
bases de dados não garante, por si só, o acesso a informação
pertinente para treinadores e investigadores. Para contornar
este problema torna-se imprescindível dar um sentido ao dados
recolhidos, explorando-os de forma a garantirem o acesso à
informação considerada importante (Garganta, 1997).
Assim,
a viabilização duma observação e análise do jogo ajustadas
impõe, para além dos instrumentos tecnológicos, a definição
clara de instrumentos conceptuais (modelos) que balizem a
elaboração e aplicação de metodologias congruentes com a
natureza do jogo (Pinto & Garganta, 1989).
Habitualmente
diz-se que para encontrar algo, há que procurá-lo. No contexto
da observação e análise do jogo, a lógica é inversa, ou
seja, primeiro encontra-se (configura-se) as categorias e os
indicadores e só depois se procura e se afere as suas formas de
expressão no jogo. Apenas deste modo os sistemas
computadorizados podem constituir-se como aliados na resolução
eficaz de problemas.
As
condições instáveis e aleatórias em que ocorrem os JD,
embora confiram originalidade e interesse às situações,
tornam mais delicada a tarefa do observador e do experimentador.
Nos
desportos individuais, desde há muito que a observação incide
preferencialmente nos aspectos técnicos da execução. Nestas
modalidades, as análises biomecânicas podem bastar para
informar com exactidão sobre o comportamento do atleta e,
assim, fornecer dados suficientes que permitam estabelecer um
plano de treino ou detectar talentos. Pelo contrário, nos JD as
capacidades dos atletas são condicionadas fundamentalmente
pelas imposições do meio, isto é, pelas sucessivas configurações
que o jogo vai experimentando e, por tal motivo, a observação
de todos os jogadores em movimento torna-se extremamente
complexa. Para além disso, a interdependência dos
comportamentos constitui um obstáculo difícil de ultrapassar.
A
metodologia observacional (Anguera, 1999) e a análise de dados
abrem territórios fecundos de investigação no domínio das Ciências
do Desporto, nomeadamente no que respeita ao entendimento das
condições que concorrem para o sucesso nos jogos desportivos.
Todavia, para que tal se concretize, importa passar de uma
observação passiva, portanto sem problema definido, com baixo
controlo externo e carente de sistematização, para uma observação
activa, i.e., sistematizada, balizada por um problema e
obedecendo a um controlo externo (Anguera et al., 2000).
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